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BRASIL, Centro-Oeste, BRASILIA, Homem, de 36 a 45 anos



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Poesia e + ... Ricardo Senna Guimarães
 

Poemas meus



Há que laborar

Uma serra no horizonte

uma montanha, um vale

e todos os lugares

que uma palavra tem de percorrer

até alcançar seu destino

de ser

uma serra

uma montanha

um vale

em um poema

 

             Ricardo Senna Guimarães



Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 11h10
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Talvez inútil, fútil, mas por certo divina, como a vida

 

 

Hoje, 14 de março, é o dia nacional da poesia e é também o dia do nascimento e no qual se homenageia um dos poetas românticos mais importantes do Brasil, Castro Alves.

O Dia Internacional da Poesia, declarado pela Unesco, é comemorado em 21 de março.

 

 

Vem do fundo da terra

das profundezas mesmo da terra

onde há colônias de cupins, formigas,

restos de gente e desencanto arraigado

 

Vem, mas não vem complacentemente

não há espontaneidade nesse seu vir

não brota simplesmente com a altura tal do sol

ou com a irrigação natural da chuva

 

Volúvel, é preciso ir buscá-la

cavar profundo, revolver essa terra

saber de sua localização, sua maturidade

e, principalmente, de sua vontade de elevar-se

 

Não há facilidade nessa tarefa

antes, há a necessidade de formar-se engenheiro

conhecer as artimanhas das várias camadas da terra

resolver passagens, negociar retiradas de pedras

 

Há, sobretudo que se respeitar o peso da terra

enraizar com a deferência das árvores

sorver com parcimônia o substrato

e transformá-lo, com sabedoria, em seiva enriquecedora

 

Por certo, o fruto será gerado

as palavras, encopadas, frondosas, trarão sentido à paisagem

sua obra – a poesia – florescerá

talvez inútil, fútil, mas por certo divina, como a vida.

 

Ricardo Senna Guimarães



Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 10h52
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Uma carta

 

Pegue esta carta

dobre-a ao meio

longitudinal

faça triângulos em suas bordas

dobre mais uma vez

meia folha para cada lado

ache o vale central

e abra-o um pouco

para o vento passar

crie asas

parece um avião de papel?

Então jogue para uma longa viagem

 

                                                                   as más notícias

 

 

Ricardo Senna Guimarães

 



Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 10h58
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O silêncio é a resposta ao indizível

 

silêncio

das palavras várias

a ciscar na cabeça


no travesseiro

silêncio

uma decisão


na escuridão

o ressoar

do sonho

de alguém


o egoísta

que dorme ao seu lado


          Ricardo Senna Guimarães



Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 19h16
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triunfos no varal

 

a outra face da moeda razão


certos planos

ele costuma cumpri-los à noitinha

no lusco-fusco dos vultos

quando a sua loucura

encontra companhia

não no desvio

mas no plural das personagens do mundo


quando escurece

toma para si a outra face da moeda razão

considera sem preço

sua emergência hedonista

e tilinta à caça pelas ruas

entre as sombras do refletor

o abrigo da marquise

o odor do fim do dia


faz com pressa tudo

o que a noite escura lhe permite

para ter o prazer

de tudo se arrepender

quando o sol voltar a brilhar


e assim vai

ostentando seus triunfos

à vista de todos

à luz do dia

como medalhas penduradas no varal


                     Ricardo Senna Guimarães



Foto: Xiao Wei



Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 17h51
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Vento seco de inverno

Um latido longe de cão vira-lata,

A bomba jogando água na caixa

As crianças de algazarra no quintal...

Aquela mulher observa tudo:

O sol frio que ilumina o terno,

As camisas penduradas no varal

E as migalhas deixadas em cima da mesa.

Um vento seco de inverno

Desalinha dois fios de cabelo denso

Preocupados e quase inertes

Nesta tarde de sábado eterno.


Cozinha: o lugar da casa onde estão

Esquecidos, deixados ou até semeados

Medos, sonhos e desejos

Daquela mulher madura em si

E verde de amores experimentados.

Cozinha porque é assim que aprendeu

Nas tardes em que as mulheres reunidas

Deleitavam escritos trocados

Que diziam como reunir ingredientes

Assá-los em forno quente

E transformá-los em homens casados.


Mistura é a palavra da vida daquela mulher.

A mistura de amor e amansamento,

Ponto certo de vida conforme

Tanto quanto sorriso e docilidade,

Máscara justa de certo sofrimento.

Mistura tédio de uma vida digna

Com a dor de um tempo perdido,

Como agora prepara essa oferenda

Em tonel exposto entre as pernas

Mistura de melaço e amargor

Iguaria fina de mulheres como aquela.

Calda quente, seiva úmida

Servida com fervor

Ao homem que chega em casa derrubando portas

E desalinhando pêlos

Como o vento seco de inverno.


     Ricardo Senna Guimarães

 

Foto: Mietek Kalinowski



Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 19h18
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ir

e tornar o tempo

inflexível

 

ficar

e deixar o vácuo

situar-se

 

as mãos

roçam-se

 

a mala

na cama

aguarda

 

            Ricardo Senna Guimarães

 

Foto: Marko Mueller, in www.altphotos.com

 



Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 10h52
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Um jeito próprio de persuadir

      Foto: Andrzej Jakubc, in www.altphotos.com

 

proporcionar a ti

a dor que calas ao permitir

um deixar que vá sem querer ir

entre paredes que separam mundos

na sala, no hall, no quarto de vestir

em hora tal que não exista

para quem ela não deva existir

a dor que lacrimeja os olhos

aguerrida, persistente, brava e ardente

a dor que queres, pois exigente

há de tudo fazer-se um pouco

para com outros saber discernir

a dor que marca sem nunca ferir


proporcionar a ti

a dor que invade ao permitir

práticas nunca feitas mas desejadas

no íntimo, no escuro, no momento em que

revira olhos ao sentir

com força, quase nunca,

mas com destreza

habilidade

pouco a pouco expandir

chegar aonde nunca chegou

até tornar-se adequada

perfeita com seu jeito próprio

de persuadir


proporcionar a ti

a dor que queres sem consentir

a dor que passa após atingir

o ponto tal em não mais é dor

é um certo gozar e depois deprimir

um pouco afrouxar após contrair

um deixar que vá sem querer ir

a dor que marca sem nunca ferir

a dor que encanta

a dor que repousa

que te cobre, te abraça

a dor que cessa: amor

a dor de resta: ardor


             Ricardo Senna Guimarães



Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 18h38
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Foto: Christian Linder

 

Em percalços

 

Meu caminhar é incauto

deixo rastros

pelos destinos

que escôo

vou descalço

são desatinos

os vôos

qu'inda alço

 

posto que

não tenho

sonhos castos

antes veleidade

crassa

em declínio

escolho pastos

onde grassa

o domínio

sabores gastos

da devassa

e do fascínio


meu caminhar é secundário

ando sôfrego

pelos enganos

que passei

fui libertário

guardo o fôlego

para os anos

que serei

solitário

 

visto que

vaticino sucumbir

ante as

poções de torpor

coronárias

 

suicidas

despendidas

arraigadas

 

declarações de amor

várias

esculpidas

engolidas

engasgadas


         Ricardo Senna Guimarães



Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 18h48
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l'art pour l'art


a lassidão do não saber se

a mala na poltrona

aguarda ser

arrumada

ou

desarrumada


um espelho mostra tudo

nada vê


os restos do desjejum

que se espera

chegar

ou

ser levado


a porta do banheiro semi-aberta

nada diz


um ventilador de teto

agita cortinas brancas

amareladas


luzes tremeluzentes

entram e saem

nada ouvem


mostram corpos

às vezes sim

às vezes não

relaxados


        Ricardo Senna Guimarães



Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 17h19
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Chuva em final de tarde

 

trouxe este poema

debaixo de chuva


embrulhado

em pacote de supermercado


o guarda-chuva

chinês


vontade

de conhecer a europa


os pés molhados

como em criança


quarenta anos

e nada mais a dizer


            Ricardo Senna Guimarães



Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 18h59
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Uma flor para você que visita o meu blog

 

Rebentar

porque é de sua natureza rebentar

expelir

alma, corpo e a intenção única

aventurar

pelo território inexplorado

grimpar

campanha fiel à existência

irromper

de forma veneravelmente impetuosa

nascer

flor de violeta

colossal domínio do encanto

 

                         Ricardo Senna Guimarães

 



Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 11h21
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Rocha de gelo guardada no alto de uma montanha

rocha

 

sonhei que essa mulher morria

e morreu

exatamente como sonhei

olhos brilhantes arregalados

fala trêmula salpicante

afoita

a dizer-me quero-te

 

de tanto amor tornou-se rocha

de gelo guardada no alto de uma montanha

 

e as rochas...

             as rochas não querem

                                          jamais

 

                              

                               Ricardo Senna Guimarães

 

 

Foto: Ilona Wellmann, copiada do site http://ilonawellmann.meinatelier.de/index.php4

 



Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 09h51
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Imagem e desejo

Um lindo Ipê Amarelo na Esplanada dos Ministérios.Foto: Augusto Areal, que mantém um site de fotos de Brasília muito interessante. Vale a visita: www.infobrasilia.com.br

 

imagético


um ipê amarelo

florido

na rua principal

da minha cidade


quieto

sem dizer palavra


em casa cultivo

meu jardim baldio


flores reclamam

do tempo seco


há um sol aqui e aí


ah, imagem perfeita

do desejo que sinto

por ti


        Ricardo Senna Guimarães



Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 17h39
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Finais de tarde em meados de agosto

 

Alguém muito próximo, disposto a trocar confidências.

Alguém que podemos alcançar com um olhar, não mais que isso.

Alguém que não tem sempre as respostas, mas que tem a nossa cumplicidade.

Assim é o céu de Brasília. Quem mora por aqui sabe.

E, de vez em quando, se pega conversando com o céu.

 

 Foto: Augusto Areal, que mantém um site de fotos de Brasília muito interessante. Vale a visita: www.infobrasilia.com.br

 

Dúvida de menina sob o céu de Brasília

 

Olhar no céu a sua sina

e mais que olhar

esperar do céu a sua sorte

e mais que esperar

questionar ao céu o seu receio:

"- pecarei?"


Hesitação inevitável de menina

na busca de resposta que a conforte

do clarão iminente de seu anseio.


"- Pecarás!

Pecarás de dia e a sol posto

pecarás de modo exuberante e profuso

com olhos largos e sorriso exposto.


Porém, hás de cumprir este meu devaneio:


pecarás com vermelhidão no rosto

a mesma que em Brasília eu produzo

nos finais de tarde em meados de agosto.”

                                                                                              Ricardo Senna Guimarães



Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 18h43
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