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BRASIL, Centro-Oeste, BRASILIA, Homem, de 36 a 45 anos



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Poesia e + ... Ricardo Senna Guimarães
 

A casa das belas adormecidas

 

Trago um pequeno trecho do livro que estou lendo, “A casa das belas adormecidas”, de Yasunari Kawabata. Acho que demonstra muito bem o clima da história e a carga de erotismo delicado que o autor consegue transmitir. Delicie-se:


Já com o coração sereno, Eguchi olhava o rosto e o pescoço da garota. Sua pele convinha ao vago reflexo do carmesim das cortinas de veludo. O corpo da menina, que servia de brinquedo aos velhotes a ponto de ser designada pela mulher da casa com o termo 'experiente', permanecia virgem. Isso porque os velhotes estavam decrépitos, e também porque ela estava profundamente adormecida. Entretanto, Eguchi começou a sentir uma preocupação paternal quando imaginou que vicissitudes essa garota de jeito coquete enfrentaria dali em diante. Era um sinal de que ele próprio havia envelhecido. Sem dúvida, a garota dormia só para ganhar dinheiro. Porém, para os velhotes que pagavam pelas jovens, o fato de poder deitar-se ao lado de uma garota como aquela equivalia, sem dúvida, à felicidade de se encontrar no paraíso. Já que a menina não acordava, o cliente idoso não precisava envergonhar-se do complexo de senilidade, e ganhava a permissão de perseguir livremente suas fantasias a respeito das mulheres e mergulhar em recordações. Talvez por isso não hesitassem em pagar mais caro pela garota adormecida do que por uma mulher acordada. O fato dessas meninas jamais saberem nada sobre os velhos proporcionava a eles maior tranqüilidade. Por sua vez, eles não sabiam nada sobre as condições de existência ou a personalidade delas. Estava tudo planejado para não deixar nenhuma pista, para que nem mesmo se pudesse conhecer as roupas que elas usavam. Não se tratava apenas de razões banais para evitar algum incômodo posterior aos velhotes, mas de uma luz misteriosa na profundidade das trevas.”



Categoria: Li, tô lendo, vou ler, vi
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 16h54
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Vasco da Gama, tua imensa torcida é bem feliz?

XAntes estávamos indignados. Agora estamos colhidos pela tristeza e pela desesperança...



Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 08h03
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A casa das belas adormecidas

 

Livraria nova na cidade é sempre uma boa desculpa para comprar um livrinho. Pois bem, fui visitar novamente a Livraria Cultura que abriu em Brasília na semana passada. Uma super livraria, como não poderia deixar de ser. Grande estoque de livros, CDs, DVDs, revistas e um atendimento muito bom, pelo menos até agora. Vamos ver como fica...


Acabei comprando o livro de um dos grandes escritores japoneses do século XX, Yasunari Kawabata, ganhador do prêmio Nobel de 1968 “pelo domínio de sua narrativa, expressando com admirável sensibilidade o espírito japonês”. O livro é “A casa das belas adormecidas”, publicado no Japão em 1960 e agora no Brasil, em tradução do japonês, pela editora Estação Liberdade.


O livro conta a vivência de Eguchi, um senhor de 67 anos que freqüenta a “casa das belas adormecidas”, onde tem a possibilidade de passar horas sozinho com jovens mulheres que dormem o tempo todo. Nessa situação, pode explorar o corpo feminino, momentos que Kawabata descreve com muita delicadeza e erotismo. Pelo menos é o que pude perceber, já que li apenas o primeiro capítulo.


O livro se inicia com este primeiro trecho:

“— Não faça nenhuma brincadeira de mau gosto, por favor. Não vá, por exemplo, enfiar o dedo na boca da menina adormecida — recomendara insistentemente a mulher da hospedaria ao velho Eguchi.”


Nem parece que daí possa se construir uma história delicada sobre a sexualidade na idade madura, num cenário composto para o deleite de quem não mais pode procurá-lo por conta própria.


Mais um trecho: “Completamente fora de si, o velho Eguchi esquecera que a garota era a oferenda ao sacrifício, e procurou com o pé as pontas dos pés dela. Somente ali ele ainda não havia tocado...”


A obra de Kawabata é marcada, sempre, por uma fascinação pelo mundo feminino, pela sexualidade humana, pelo tema da transitoriedade, da morte e da fatalidade. Esse livro, com certeza, vou ler com muita avidez.


Obs.: alguns trechos acima foram retirados das orelhas do livro e de matéria publicada na revista Cult, edição 89.



Categoria: Li, tô lendo, vou ler, vi
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 16h33
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(sem título)

 

abandono


melhor regar

as sempre-vivas


as lágrimas nunca chegam

a fecundar a terra


                  Ricardo Senna Guimarães



Categoria: Poemas meus
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 11h14
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(sem título)

 

na cabeça

o que resta

da vontade de ser

flechada

 

no corpo

o alvo

perfume de spray

certeiro

 

                   Ricardo Senna Guimarães

 



Categoria: Poemas meus
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 10h08
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Visita da poeta

 

Gentileza muito grande da poeta Virna Teixeira, recebi seu primeiro livro, “Visita”, publicado em 2000 pela 7Letras. Além do livro autografado, Virna enviou-me observações sobre sua poesia e seu estilo de escrita, muito úteis para mim que a admiro como poeta.


De “Visita”, selecionei um belo poema. Acho que tem muito a ver com outro que escrevi há tempos. Publico os dois:


Meio-dia

        Virna Teixeira


beira de viaduto,

mendigo

descalço


televisão nos braços


súbito, arremessada

avenida abaixo


cacos

carros veloz

disputa

dos pedaços, asfalto


enquanto


esfregar de mãos

os passos

sem pressa.



Viaduto, fim de tarde

             Ricardo Senna Guimarães


na amplitude

da altura

a visão


na incerteza

das mãos

o ato


no vulto

inerte

a ressonância

do percurso


na gente

embaixo

o recolher

de mais um dia



Categoria: Poemas meus
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 08h18
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20 de julho - dia do amigo

 

Hoje é dia do amigo! Para mim, as melhores lembranças de amizade vêm da infância...


Amigo velho

Ao Marco Aurélio, um velho amigo


Um velho amigo telefonou-me

amigo velho

desses que a gente não vê e não esquece

e não convive mas vive

de lembranças

de passagens tão autênticas

que mereciam ser registradas em livro.


Amigo velho

amigo que era braço e perna

jogo e vida

ar e sangue daqueles tempos

e que tempos!


Tempos que passaram

tempos em que a fantasia era a realidade

e tinha-se plena convicção disso

tempos de infância

em que um amigo valia a vida

e a vida valia muito.


Amigo velho

vamos nos encontrar

será que voltaremos a nos ver

ao menos por um instante

de calças curtas

                    de cara suja

                                   de braços dados?


                        Ricardo Senna Guimarães



Categoria: Poemas meus
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 08h11
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Onde está Érika Vander?

 

Destaco duas notas da coluna L2, que Sérgio de Sá publica todos os sábados no caderno Pensar, do Correio Braziliense. Estas saíram no sábado passado, dia 16. A primeira fala da nossa campanha:


CORA CURIOSA

O poeta e blogueiro Ricardo Senna Guimarães acaba de lançar a campanha Onde está Érika Vander?. É que ele encontrou, dentro de uma segunda edição de Poemas dos becos de Goiás e estórias mais, o livro de estréia de Cora Coralina, um bilhete escrito pela poeta goiana, em 1981 e de próprio punho, para Érika Vander: “Érika, você é linda e cheia de encantos. Tive seu tamanho e sua idade e ninguém me deu caminhos, nem amor e nem cuidados. Desejei tanto uma boneca de louça que eu dizia: Boneca de Verdade. Minhas bonecas eram bonecas de pano, bonecas de mentira, chamadas Bruxas. Eu queria a boneca da loja que morava na caixinha, queria tanto, e nunca foi minha.”

Para Ricardo, “trata-se de uma preciosidade”. Para mais detalhes ou quem souber do paradeiro da destinatária do pequeno texto, o endereço na internet:

http://ricardo.senna.blog.uol.com.br “

Em 1981, Cora Coralina escreveu um bilhete a Érika Vander, personagem misteriosa que este blog procura desvendar. Veja a campanha “onde está Érika Vander” nos posts abaixo e ajude a elucidar este delicioso enigma!


A outra nota trata de uma questão comercial e mostra que os pequenos, em qualquer ramo, têm de demonstrar criatividade para sobreviver num mercado cada dia mais global:


E AGORA?

A filial brasiliense da Livraria Cultura será inaugurada na próxima quarta-feira, 20 de julho, no CasaPark. Ficará aberta, nesse dia, das 14h às 22h. Entre os pequenos livreiros, o clima é de apreensão. Afinal, em Porto Alegre e no Recife, onde se instalou depois de um terreno consolidadíssimo em São Paulo, a livraria mexeu com o mapa cultural das cidades, por conta de uma programação interessante de lançamentos, acervo excepcional e atendimento especializado. Vamos ver o que acontece aqui.

A primeira reação vem de Lourenço Flores, proprietário da Esquina da Palavra (406 Norte). Ele promove na mesma quarta-feira, a partir das 16h, uma megapromoção de livros de “ponta de estoque” da editora Cosac&Naify. São 140 títulos com nada mais nada menos do que 40% de desconto.”



Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 08h00
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Cora Coralina

Ler a poesia de Cora Coralina é voltar a um tempo que havia no interior de Goiás. Coisas que só ouvimos falar e, mesmo assim, sentimos uma saudade imensa. Coisas assim:

 

“De manhã cedo

quando acordava,

estremunhada,

com a boca amarga,

— ai de mim —

via com tristeza,

sobre a mesa:

xícaras sujas de café,

pontas queimadas de cigarro.

O prato vazio, onde esteve o bolo,

e um cheiro enjoado de rapé.”

 

Trecho do poema “Antiguidades”, in “Poemas dos becos de Goiás e Estórias Mais”.

 

Em 1981, Cora Coralina escreveu um bilhete a Érika Vander, personagem misteriosa que este blog procura desvendar. Veja a campanha “onde está Érika Vander” nos posts abaixo e ajude a elucidar este delicioso enigma!



Categoria: Poesia do dia
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 09h47
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 Cora Coralina

 

"Versos... não

Poesia... não

um modo diferente de contar velhas histórias"

(Poema Ressalva, extraído do livro Poemas dos Becos de Goiás e estórias mais)

 

Cora Coralina nasceu em 20 de agosto de 1889, na casa que pertencia à sua família há cerca de um século e que se tornaria o museu que hoje reconta sua história.

Filha do Desembargador Francisco de Paula Lins dos Guimarães Peixoto e Jacita Luiza do Couto Brandão, Cora, ou Ana Lins dos Guimarães Peixoto (seu nome de batismo), cursou apenas as primeiras letras com mestra Silvina e já aos 14 anos escreveu seus primeiros contos e poemas. Tragédia na Roça foi seu primeiro conto publicado.


Em 1911 fugiu com o advogado divorciado Cantídio Tolentino Brêtas, com quem casou-se. Conta a história que a fuga foi a cavalo. Cora tinha 22 anos e já mostrava ser uma mulher à frente do seu tempo, numa época e numa cidade em que as mulheres praticamente nem podiam postar-se à janela das casas. Vai para Jaboticabal (SP), onde nascem seus seis filhos.


Só voltou a viver em Goiás em 1956, mais de vinte anos depois de ficar viúva e já produzindo sua obra definitiva. O reencontro de Cora com a cidade e as histórias de sua formação alavancou seu espírito criativo. Tornou-se doceira para manter o sustento, encantando até Jorge Amado, que fez questão de visitá-la e cumprimentá-la por suas habilidades na cozinha.


Em 1980, Carlos Drummond de Andrade, como era de seu feitio, após ler alguns escritos da autora, manda-lhe uma carta elogiando seu trabalho, a qual, ao ser divulgada, desperta o interesse do público leitor e a faz ficar conhecida em todo o Brasil.


"Minha querida amiga Cora Coralina: Seu "Vintém de Cobre" é, para mim, moeda de ouro, e de um ouro que não sofre as oscilações do mercado. É poesia das mais diretas e comunicativas que já tenho lido e amado. Que riqueza de experiência humana, que sensibilidade especial e que lirismo identificado com as fontes da vida! Aninha hoje não nos pertence. É patrimônio de nós todos, que nascemos no Brasil e amamos a poesia ( ...)."


Em 1981 escreveu um bilhete a Érika Vander, personagem misteriosa que este blog procura desvendar. Veja a campanha “onde está Érika Vander” nos posts abaixo e ajude a elucidar este delicioso enigma!


Fonte dos dados biográficos:

http://www.releituras.com/coracoralina , www.cidadeshistoricas.art.br/hac/bio_cora_p.htm  e depoimentos no programa da Ana Maria Braga.



Categoria: Poesia do dia
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 11h05
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Cora Coralina (mais um trechinho)

Mais um trechinho do “Poema do milho”:

 

(...)

Cabeleiras vermelhas, bastas, onduladas.

Cabelos prateados, verde-gaio.

Cabelos roxos, lisos, encrespados.

Destrançados.

Cabelos compridos, curtos,

queimados, despenteados...

Champu de chuvas...

Fragrâncias novas no milharal.

— Senhor, como a roça cheira bem...

(...)

 

Trata-se de um poema longo que deita-se suavemente por 8 páginas. Por merecimento, devemos lê-lo de joelhos...



Categoria: Poesia do dia
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 09h31
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Cora Coralina

 

Transcrevo do livro “Poemas dos becos de Goiás e estórias mais” um trecho do que talvez seja o que de mais belo escreveu Cora Coralina. Lá na pág. 107 surge a “Oração do milho”, introdução ao “Poema do Milho”. Começa assim:

 

Senhor, nada valho.

Sou a planta humilde dos quintais pequenos e das lavouras pobres.

Meu grão, perdido por acaso,

nasce e cresce na terra, descuidada.

Ponho folhas e haste, e se me ajudares, Senhor,

mesmo planta de acaso, solitária,

dou espigas e devolvo em muitos grãos,

o grão perdido inicial, salvo por milagre,

que a terra fecundou.

Sou a planta primária da lavoura.

Não me pertence a hierarquia tradicional do trigo,

de mim não se faz o pão alvo universal.

(...)

 

Já do “Poema do milho” trago um trecho precioso que está na pág. 112:

 

(...)

E o milho realiza o milagre genético de nascer.

Germina. Vence os inimigos.

Aponta aos milhares.

— Seis grãos na cova.

— Quatro na regra, dois de quebra.

Um canudinho enrolado.

Amarelo-pálido,

frágil, dourado, se levanta.

Cria sustância.

Passa a verde.

Liberta-se. Enraíza.

Abre folhas espaldeiradas.

Encorpa. Encana. Disciplina,

com os poderes de Deus.

(...)

 

 

 



Categoria: Poesia do dia
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 09h29
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Onde está Érika Vander? (post 2)

Na foto abaixo apresento o livro que guardava uma preciosidade: o bilhete escrito de próprio punho pela poeta goiana Cora Coralina. O bilhete está endereçado a essa misteriosa personagem que o mundo dos blogueiro agora se encarrega de encontrar: Érika Vander. Quem será ela? Será que se lembra do dia em que recebeu esse bilhete? Estaria ela visitando Cora Coralina em sua casa na Cidade de Goiás? Teria experimentado os famosos doces caseiros que a poeta fazia?

Pesquisa da Veja informa que cerca de 60% dos internautas brasileiros acessam regularmente os blogs. Sendo assim, creio que temos grande chance de revelar ao mundo essa personagem que em 1981 encontrou-se com Cora Coralina, recebeu um bilhete tão carinhoso e guardou-o dentro do primeiro livro publicado pela poeta.

Érika Vander vai acabar se transformando em personagem de livro, filme ou novela...



Categoria: Li, tô lendo, vou ler, vi
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 17h31
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Onde está Érika Vander?

 

Quem assistiu ao início do programa da Ana Maria Braga hoje teve a oportunidade de ver uma bonita matéria sobre Cora Coralina. Jean (aquele do BBB) foi à Cidade de Goiás e mostrou a história da vida dessa importante poeta (e doceira) goiana. Imagens de Cora à beira do fogão fazendo seus doces que encantaram Jorge Amado, caminhando na cidade, falando, recitando e escrevendo seus poemas que encantaram Carlos Drummond de Andrade e encantam a todos nós.


Pois bem, tudo isso me fez lembrar que tenho na minha estante algo que considero uma relíquia: o primeiro livro de Cora Coralina, “Poemas dos becos de Goiás e estórias mais”. O meu é a segunda edição, de 1977, impressa na Universidade Federal de Goiás. Parece uma publicação quase artesanal, tem cara e jeito de coisa antiga, e já está um pouco amarelada. Como a consegui? “Capturando” das coisas do meu irmão. Claro, tempos depois, ele consentiu e hoje já consideramos como meu.


Dentro do livro há um bilhete escrito a caneta de próprio punho por Cora Coralina. Diz ele:


Érika Vander


Erika, você é linda e cheia de encantos. Tive seu tamanho e sua idade e ninguém me deu caminhos, nem amor e nem cuidados.

Desejei tanto uma boneca de louça que eu dizia: Boneca de Verdade. Minhas bonecas eram bonecas de pano, bonecas de mentira, chamadas Bruxas. Eu queria a boneca da loja que morava na caixinha, queria tanto, e nunca foi minha.


Cora Coralina

Cidade de Goiás, 3-3-81”


Parece-me uma preciosidade.


Acontece que ninguém sabe quem é Érika Vander, para quem Cora escreveu esse bilhete. Seria uma menina à época? E hoje, quem será? Como veio parar esse bilhete nas minhas mãos?


Está lançada a campanha: onde está Érika Vander?




Categoria: Li, tô lendo, vou ler, vi
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 09h43
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Hilda Hilst

Foto: autoria de Andréia Kris, capturada no fotolog "Abre a porta que eu tô chegando..." http://andreiakris.fotoblog.uol.com.br/photo20050508004837.html

 

Cantares do Sem Nome e de Partidas

                                                       H.H.

Que este amor não me cegue nem me siga.

E de mim mesma nunca se aperceba.

Que me exclua do estar sendo perseguida

E do tormento

De só por ele me saber estar sendo.

Que o olhar não se perca nas tulipas

Pois formas tão perfeitas de beleza

Vêm do fulgor das trevas.

E o meu Senhor habita o rutilante escuro

De um suposto de heras em alto muro.


Que este amor só me faça descontente

E farta de fadigas. E de fragilidades tantas

Eu me faça pequena. E diminuta e tenra

Como só sonhem ser aranhas e formigas.


Que este amor só me veja de partida.

 



Categoria: Poesia do dia
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 18h17
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Alternativa poética

 

Há poucos dias comentei este belo poema de Virna Teixeira:


um travesseiro

bordado, canto

esquerdo:

ninguém”


É, sem dúvida, uma composição que nos deixa atônitos diante da solidão constatada pela personagem. Tocado por isso, apresento não uma resposta, mas uma alternativa:


Adolescência


Apalpando o bico

do travesseiro

como um seio


ele tem

as mulheres


que quer

todas

as noites


           Ricardo Senna Guimarães



Categoria: Poemas meus
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 19h20
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Intimidades

 

o tempo seco

em Brasília

pega de surpresa


os dedos rijos

de frio

alcançam

o íntimo de uma fruta


o sumo segredado

derrama


o poeta

com frio

encontra sabor

na ponta dos dedos


como todas as noites

                       

                        Ricardo Senna Guimarães



Categoria: Poemas meus
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 19h23
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Virna Teixeira

Recebi ontem “Distância”, segundo livro de Virna Teixeira, que comprei no site da 7letras. A poesia de Virna me conquistou desde quando li, há alguns anos, um poema do seu primeiro livro, “Visita”, publicado em 2000:

 

um travesseiro

bordado, canto

esquerdo:

“ninguém”

 

Grande exemplar da poesia brasileira contemporânea. Impressionante capacidade de concisão, para transmitir uma mensagem tão profunda e tão bela. Desde aquela época decidi que Virna seria uma das poetas que eu teria como referência. Ela publica um blog muitíssimo legal, o “papel de rascunho”: http://papelderascunho.blogspot.com . Acho que ela gosta de mim também, porque no blog dela tem um link para o meu...

 

Vale a visita e vale a leitura.

 

PS.: comprei também um livro de poesias que há muito desejava: “No caminho com Maiakóvski”, de Eduardo Alves da Costa, Ed. Geração Editorial. Belíssima edição da poesia reunida desse autor do poema que dá nome ao livro e que tem uma história tão extraordinária de um equívoco de autoria que já ficou famosa. Um dia conto por aqui.

 



Categoria: Li, tô lendo, vou ler, vi
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 16h26
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aprender o significado

da marca deixada

na cama vazia


o corpo deitado

o peso deixado

na cama vazia


a janela aberta

o cheiro deixado

na cama vazia


a palavra ciúme

não dita

deixada

na cama que ardia

 

                       Ricardo Senna Guimarães



Categoria: Poemas meus
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 16h35
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