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BRASIL, Centro-Oeste, BRASILIA, Homem, de 36 a 45 anos
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Alice Ruiz - haikais de Yuuka
Transcrevo uma pequena amostra dos belos haikais do livro Yuuka, de Alice Ruiz:
borboleta na chuva
o peso da gota
ainda mais leve
Porto Alegre, 99
sapos chamam chuva
um céu de estrelas
como platéia
Vila da Glória, 98
o ônibus passa
a árvore acena
chão de laranjas
Antonina, 95
pitanga temporã
brilha no inverno
a cor do verão
Guaratuba, 98
o fogo leva desejos
em forma de faísca
até a lua pisca
Porto Velho, 97
Só agora lembrei que tenho na minha estante outro livro de Alice Ruiz, “Poesia pra tocar no rádio”, com poemas que são letras de músicas, inclusive uma conhecidíssima: “Socorro” (“Socorro eu não estou sentindo nada...”), gravado por Arnaldo Antunes, Cássia Eller e Gal Costa. Esse livro ganhou o primeiro lugar no concurso Blocos de poesia em 1999. Que cabeça minha não ter levado para ela autografar...
Categoria: Poesia do dia
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 11h47
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Alice Ruiz

Ontem fomos ao encontro da poeta Alice Ruiz e da sua palestra no CCBB com muita poesia, lembranças do tempo vivido com Paulo Leminski, emoções, segredos das suas oficinas poéticas, revelações sobre o lançamento do CD “Paralelas” e leitura de belos poemas. Alice foi a simpatia em pessoa, inclusive na hora do autógrafo em seu livro de haikais “Yuuka”, no qual escreveu esta linda dedicatória: “Ricardo, beijo carinhoso da Yuuka, vulgo Alice”. Aliás, como explicado no livro, Yuuka é o título outorgado a Alice pela comunidade nipo-brasileira de Curitiba “em reconhecimento à dedicação, divulgação e grandiosidade que deu à poesia de origem japonesa, haicai.”
Lá também traz a tradução do nome: “Yuuka, nome poético composto de dois ideogramas de significados amplos, pode ser traduzido como “grandiosidade esplêndida como a flor” ou “formosura floral infinita” ou “a beleza floral que excede” ou “doce imensidão da flor” ou “brilho da beleza floral”. A tradução é livre, e vem ao encontro da liberdade poética na composição dos ideogramas, muito praticada pelos artistas nipônicos. Por exemplo, o uso da palavra Yuuka num haicai, com apenas dois ideogramas, pode resolver mil situações num verso ou numa linha, expressando exatamente o que o poeta deseja. Coisa que em português dificilmente conseguiríamos.”
Transcrevo no post acima uma pequena amostra dos belos haikais do livro Yuuka...
Categoria: Poesia do dia
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 09h06
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três dias da infância dedicados
a escrever bilhete
entregá-lo com mão trêmula
perder sono
esperar resposta
- talvez melhor que não venha -
até o ansiado sim
sem saber o que fazer com ele
mas que vale o primeiro beijo
a paixão
move
montanhas
e
a vida
escorrega
entre os dedos
Ricardo Senna Guimarães
Categoria: Poemas meus
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 13h50
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Lançamento de livros!
Recebi dois convites muito simpáticos para lançamento de livros:
29/6 (quarta-feira), às 19h, no Carpe Diem da 104 sul: coquetel de lançamento do livro “Doa-se lindos filhotes de poodle - variação linguística, mídia e preconceito”, de Maria Marta Pereira Scherre. Mais informações sobre o livro no site da editora: www.parabolaeditorial.com.br
6/7 (quarta-feira), às 18h, na Entrelivros, 406 norte: lançamento do livro “Vinde a mim as palavrinhas”, de Nicolas Behr. O livro reúne reúne os 10 livrinhos mimeografados entre 1979 e 1980: Com a Boca na Botija, Parto do Dia, Elevador de Serviço, Põe sia nisso!, Entrequadras, Brasiléia Desvairada, Saída de Emergência, Kruh, 303F415 e L2 noves fora W3. Maiores informações em www.nicolasbehr.com.br
Vamos lá!
Categoria: Evento
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 09h48
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Russeu
Endurecido
por compressão ou fricção contínua
inchaço
sensação que se experimenta
protuberância
mal quista ou não esperada
excrescência
sensível ao leve toque
capuz
roxo por natureza do roxo
carnoso
expesso, exposto
pretensioso
o calo
Ricardo Senna Guimarães
Categoria: Poemas meus
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 17h57
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Oficina de criação poética
O poema abaixo foi reescrito para a oficina. Apresentei-o na última sexta-feira e foi muito bem recebido. A entrada dos personagens tornaram-no mais telúrico, mais real, a meu ver.
Sina e busca
Chega, meu jovem
senta comigo nesta pedra
ouve o entardecer
pois lhe digo
sim, é necessário garimpar
à cata da pedra valiosa
ambicionada por sua raridade e dureza
a cura da vida dolorosa
aquela encardida e que brota
à custa de magia e de destreza
de quem quer da sina a sua quota.
Vê, meu jovem
o entardecer nos mostra
que é preciso revolver
o chão duro da lavra alvissareira
descrita em rotas de expedições ancestrais
sujeito a surtos de ânsia e de cegueira
e assim mesmo tornar puro ou perfeito
o caldo do barro e dos cristais
que se busca e se esvai liquefeito.
Ah, meu jovem
o entardecer me ensinou
que antes da noite
há de barganhar
o brilho efêmero do tesouro apurado
catado a cargo de graça e de músculo
a fim de demorar-se mais no achado
único, precioso e somente assim: Amor
já que, meu jovem
forjado fosse com a minúsculo
dúvidas traria sobre seu real valor.
Ricardo Senna Guimarães
Categoria: Poemas meus
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 19h25
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Esta é uma semana bastante agitada. Veja a programação:
• Terça-feira (28/6): Night bike das pontes. Saindo da QI 11 (Deck Brasil) às 21h, passando pela ponte Costa e Silva, Av. L4, Ponte JK e voltando ao Deck Brasil pela EPDB. Ótimo programa para quem gosta de pedalar com um grande grupo e muita segurança. Estaremos lá!
• Quarta-feira (29/6): Rodas de leitura, no CCBB, às 19h30. A convidada é a poeta, haicaísta, letrista e tradutora curitibana Alice Ruiz. Ela lerá 14 poemas, entre inéditos e dispersos por dois de seus 11 livros publicados. Alice Ruiz foi casada com o grande poeta Paulo Leminski e lançou este ano seu primeiro CD, Paralelas, uma parceria com Alzira Espíndola e com participações de Zélia Duncan e Arnaldo Antunes, com quem colabora habitualmente. Imperdível. Estaremos lá!!
• Quinta-feira (30/6): Sarau literário musical e coquetel na Embaixada de Portugal, às 20h. O tema será “Minha alma canta: vejo o Rio de Janeiro” e serão abordados os seguintes autores: Machado de Assis, Vinícius de Moraes, Marco Antunes (o meu professor), Chico Buarque e Tom Jobim. Estaremos lá!!!
Categoria: Evento
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 21h02
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Festival Gastronômico de Pirenópolis
http://www.pirifestgastronomico.com.br/
Data: 23 a 26 de junho de 2005
Local: Pirenópolis - GO
Aproveite para visitar uma livraria pequena e de qualidade, na histórica cidade goiana de Pirenópolis; literatura regional, nacional, livros infanto-juvenis, CDs clássicos de música brasileira, folclore, arquitetura e artes, dentre outros destaques. Foi no site da livraria que retirei essas fotos. Visitem, é bem legal: http://www.livrariajosepereira.com.br/upload/index.asp

Categoria: Evento
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 12h46
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Mario Quintana conseguiu captar bem a visão dos motociclistas e dos bikers...

A verdadeira arte de viajar
A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo.
Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali...
Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!
Categoria: E Deus criou a mulher...
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 19h13
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Distorções do conhecimento em fase de turbulências políticas e outras
“A validade de nossos conhecimentos é garantida pela correção do raciocínio. É correto o raciocínio cujas proposições expressam juízos (afirmações ou negações) válidos, racionalmente fundamentados.” Essa afirmação, lida em um livrinho de filosofia, ganha importância complementar em tempos de depoimentos, discursos inflamados, acusações aqui e ali, em suma, turbulências.
O interessante é que o tal livrinho passa então a relacionar os vários tipos de sofismas ou falácias tão comuns em nosso meio. Sofismas ou falácias são armadilhas intelectuais, quando a força da argumentação está no seu efeito psicológico e não na correção lógica. Nem é preciso dizer que são amplamente utilizadas nas nossas conversas do dia a dia, nas discussões amorosas, familiares, profissionais e tudo mais. Então, prepare-se para elas:
· Vemos Pelé na televisão, dizendo: “Tome Vitasay, a vitamina dos campeões de saúde”. Ora, o que pretende esse comercial? Quem está tentando nos convencer? Pelé é médico ou bioquímico autorizado a recomendar vitaminas? Essa é uma falácia chamada apelo à autoridade. Usa-se a autoridade de alguém sobre determinada área (futebol, no caso) para afirmar ou sustentar uma posição em outra área (área da saúde). Convence-se pelo peso psicológico da autoridade, e não pelo valor racional da argumentação.
· Certo ministro da Fazenda pretendia convencer a nação da necessidade de arrocho salarial para controlar a inflação: “Como bem sabemos, a inflação é o que corrói o poder de compra dos salários. Temos então que aumentar os salários. Mas, se aumentarmos os salários, teremos que aumentar os preços para pagá-los, o que aumentará a inflação.” Ora, já foi demonstrado que a inflação tem como causa o aumento de salários?! Esse sofisma chama-se círculo vicioso. É usado na tentativa de provar uma conclusão com base num ponto de partida não demonstrado. Tanto um como outro são racionalmente improváveis.
· “A qualidade do ensino é ruim porque os professores são despreparados.” Será que o despreparo do professor é realmente a causa da baixa qualidade do ensino? Será que tanto a baixa qualidade do ensino quanto o despreparo do professor não dependem de uma política educacional eficiente? Afirma-se que um fato é causa de outro, sem considerar que há um terceiro fato que causa os dois primeiros. Essa é a chamada falácia da causa comum.
Continua no post abaixo...
Categoria: Li, tô lendo, vou ler, vi
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 17h55
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Mais sofismas ou falácias
· “A medicina é inútil. Meu pai gastou um rio de dinheiro com médicos e morreu doente.” Observe que o caso do “meu pai” é um caso isolado, quase uma exceção. Racionalmente, não posso tomá-lo como base para qualificar toda a medicina. Essa falácia chama-se generalização apressada ou indução viciosa, porque conclui uma lei geral de um caso particular apenas.
· “Esse prisioneiro não agiu contra a lei. Afinal, prisioneiro não tem liberdade. Alguém sem liberdade está impedido de agir...” Para confundir o interlocutor, são utilizadas palavras que têm várias concepções, tais como “liberdade”, “agir”. Mesmo estando preso, um homem pode agir contra a lei. Esse tipo de falácia chama-se equívoco, pois utiliza palavras equívocas (com vários sentidos).
· Parecida com a falácia anterior, temos a anfibologia. Um exemplo famoso é o caso do general que consultou o oráculo sobre sua próxima batalha. Eis como se interpretou a resposta do oráculo: “Irás. Voltarás. Não morrerás ali”. Mas o general morreu na batalha, e conta-se que a previsão do oráculo realmente era: “Irás. Voltarás? Não. Morrerás ali!”. Essa falácia consiste em utilizar frases ambíguas que podem levar a uma interpretação falsa.
· Outra falácia comum ocorre quando se considera como causa de um acontecimento um fato ou fenômeno que apenas o antecedeu, sem relação constatada de causa e efeito entre eles. Chama-se falácia de falsa causa. Veja: “Bom, ele só tinha que bater o carro. Ainda hoje de manhã, ao sair de casa, cruzou com o gato preto da vizinha e passou duas vezes debaixo da escada...” Ora, alguma vez alguém já demonstrou que encontrar um gato preto ou passar debaixo de escada realmente dá azar?
· “Você jamais será feliz. Felicidade não existe.” Essa falácia chama-se petição de princípio. Quem já demonstrou ou pode demonstrar a inexistência da felicidade? Estaríamos dando como certo algo que na verdade é duvidoso e que deveria ser demonstrado.
· “Não há qualquer registro oficial de transmissão de AIDS em consultório dentário. Por isso, não existe perigo de contaminação.” Aqui está sendo afirmado que ninguém corre o risco de contrair AIDS no consultório dentário, baseado no fato de que ninguém ainda a contraiu, oficialmente, dessa maneira. Na verdade, o argumento não esclarece racionalmente se esse contato é perigoso. Apenas considera que não é perigoso porque ignora se é ou não. Por isso, essa falácia chama-se apelo à ignorância.
· Durante uma negociação salarial, diz sutilmente o patrão: “Bem, a proposta de salário até pode não ser alta. Mas, por outro lado, há muitas pessoas desempregadas que trabalhariam por este salário”. Aqui tenta-se convencer não por argumentos racionais, mas pela ameaça (ou pela força). Esse sofisma chama-se justamente recurso à força.
· Contra o homem é o nome da falácia pela qual se ataca diretamente a pessoa, ou uma circunstância especial em que ela se encontra, com a finalidade de rebater sua posição ou afirmação. Veja: “O que ele lhe contou sobre mim é mentira. O cara é um bêbado...”. Ora, o fato de o cara ser bêbado não invalida necessariamente o que ele disse.
· Um homem é acusado de roubo. O repórter policial pergunta: “Você está arrependido?”. O cidadão desprevenido responde: “Bem, estou”. E o repórter completa: “Então você confessa que roubou?”. Essa é a falácia da pergunta complexa, em que se utiliza a combinação de duas ou mais perguntas para confundir o interlocutor e levá-lo a responder o que dele se espera.
O livrinho do qual retirei essas pérolas é “Para Filosofar”, diversos autores, Ed. Scipione
Categoria: Li, tô lendo, vou ler, vi
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 17h53
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Carlos Drummond de Andrade
Imagem: http://ouzar.nafoto.net/photo20050302113054.html
Memória
Drummond
Amar o perdido deixa confundido este coração.
Nada pode o olvido contra o sem sentido apelo do não.
As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão.
Mas as coisas findas muito mais que lindas, essas ficarão.
Categoria: Poesia do dia
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 18h44
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Leia em voz alta
Este poema que apresento abaixo segue a tradição oral da poesia. É um poema feito para ser falado, inclusive por mais de uma voz. Por isso o título. A idéia é que um coro de vozes faça o eco dos trechos marcados com [ colchetes ]. O efeito é muito bonito, especialmente se for lido compassadamente, no ritmo de uma súplica, sentindo o vento frio que bate no alto da montanha, faz revoar os cabelos e invade a alma de alguém apaixonado... Experimente!
Poema para duas vozes: [amo, amo, amo]
Quero, quero, quero
este amor.
Não me basta o amor.
Insisto, suplico, imploro.
Necessito que respondas:
amo, amo, amo.
Faço de tudo
por este amor,
vou ao país mais distante
por este amor,
subo a montanha mais alta
por este amor,
onde meu grito
por este amor
faz eco
[ eco
eco
eco. ]
Grito meu grito mais forte
por este amor.
Grito: quero!
[ quero
quero
quero ]
Grito: rogo!
[ rogo
rogo
rogo ]
Grito: clamo!
[ clamo
clamo
clamo ]
E quando gritar: amo!...
Terei a resposta?
Ricardo Senna Guimarães
Categoria: Poemas meus
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 18h03
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Jefferson, o mensalão e nossa gente
Leio em um pequeno livrinho voltado para o público juvenil que os índios do Brasil, desde sempre, possuem mitos e fábulas. Ou, como eles mesmos chamam, “histórias de verdade” e “histórias de mentira”. E, ao contrário de nós, que nos consideramos civilizados, jamais as confundem.
As “histórias de mentira” podem ser contadas a qualquer tempo por qualquer um, pertencente à tribo. Já as “histórias de verdade”... essas são privilégios dos pajés e de alguns caciques, já anciãos, com larga experiência na condução da tribo.
Além disso, e o que é muitíssimo interessante, o contar dessas histórias, tanto as "de verdade" quanto as "de mentira", é realizado em determinados rituais que acontecem na comunidade, para que todos possam ver e ouvir. Quando eles acontecem, toda a tribo pára, os principais representantes da comunidade voltam seus olhos para o ritual, os índios acompanham com interesse e soltam exclamações universais como “ah...”, “oh...”, risos, demonstram contrariedade ou concordância, compreensão ou revolta, enfim, se divertem.
Ontem foi dia de um desses rituais. Um antigo e bem conhecido componente da tribo, muito perspicaz e possuidor de atributos indiscutíveis, apresentou seus mitos e fábulas. Tudo correu dentro do script, pois essa coerência é o que faz a unidade da nossa tribo. Pois, que povo seria o nosso se não tivesse algo tão profundo a preservar?
O roteiro prevê ainda muitas participações especiais, efeitos impressionantes (fogos e luzes são muito utilizados nessas horas), personagens já tantas vezes revisitados, mas que aparecerão com novas roupagens, novos mantos, novas falas para dizer o mesmo diálogo ou monólogo de sempre.
E o grande final, quando o rei, ou o príncipe, ou a princesa, ou o pajé, ou o indiozinho que nada tinha a ver com isso reinará absoluto, em seu castelo rodeado de flores e matas virgens. Ou será que sua toca será na floresta povoada de bruxas e, quem sabe, um saci-pererê ou um curupira, só para voltar às nossas origens?
Hum... será essa uma história de amor?
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 09h52
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Pirenópolis - pedras janelas quintais
Hoje comprei um livrinho muito interessante: “Pirenópolis - pedras janelas quintais”, com fotografias de Silvio Zamboni e poemas de João Bosco Bezerra Bonfim.
Lindas fotos de ângulos inesperados ou ignorados pelos visitantes da histórica cidade de Goiás. As que mais gostei foram as fotos das janelas. “Janelas recatadas”, como diz o poeta, janelas com cortinas translúcidas, janelas de madeira, lindas janelas que refletem a cor da cidade.
“tramelas abertas
janelas sedutoras
ladeira acima
rio abaixo
seduzem meninas
transbordam riachos”
E o poeta descobriu o verdadeiro significado dos quintais dessas hitóricas e sábias cidades:
“é da natureza
dos quintais
a reserva
ali as famílias
plantam fruteiras
enterram mágoas
criam galinhas
guardam segredos”
Categoria: Li, tô lendo, vou ler, vi
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 18h37
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Poema para o dia dos namorados

Imagem: http://www.blocosonline.com.br/literatura/poesia/temdomes/2005/06/namorados/temdomes.htm
Garimpar
à cata da pedra valiosa
ambicionada por sua raridade e dureza
a cura da vida dolorosa
aquela encardida e que brota
à custa de magia e de destreza
de quem quer da sina a sua quota.
Revolver
o chão duro da lavra alvissareira
descrita em rotas de expedições ancestrais
sujeito a surtos de ânsia e de cegueira
e assim mesmo tornar puro ou perfeito
o caldo do barro e dos cristais
que se busca e se esvai liquefeito.
Barganhar
o brilho efêmero do tesouro apurado
catado a cargo de graça e de músculo
a fim de demorar-se mais no achado
único, precioso e somente assim: Amor
posto que forjado fosse com a minúsculo
dúvidas traria sobre seu real valor.
Ricardo Senna Guimarães
Categoria: Poemas meus
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 12h24
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José Paulo Paes
Aprender a gostar de ler um poeta. Esse é um exercício enriquecedor. Às vezes, à primeira vista, acontece de lermos algo e não gostarmos. Deixamos para lá. Tempos depois, ao retornar ao texto, a compreensão é totalmente diferente. É como ler algo que já estava dentro de nós, mas não suficientemente digerido. Assim também com um autor. Não raro acontece de acharmos que não gostamos de determinado escritor porque quando o lemos não estávamos preparados para ele. Tempos depois... tudo muda, tudo se esclarece, tudo se revela, e passamos a gostar. Assim aconteceu comigo e José Paulo Paes. Selecionei quatro poemas dele que acho representativos da sua obra:
Um empregado
Sofria de bócio e tinha sotaque de caipira, que a voz fanhosa mudava num quase lamento mesmo quando ria.
Na sua simplicidade, havia algo de cerimonioso. Quando um de nós, crianças, lhe atravessava o caminho nos dias de lavar o chão, ele gritava “foge foge!” porque “sai sai!” ou “passa passa!” só se diz a cachorro.
Os freqüentadores mais assíduos da livraria o tomavam como cabide de anedotas ou vítima de armadilhas. Por exemplo, enfiar às escondidas um pedaço de arame na banana de sua sobremesa para vê-lo assustar-se à primeira mordida.
Era congregado mariano e usava sempre o distintivo da congregação na lapela do terno - brim pardo dos dias de semana, casimira azul-marinho dos domingos. Nas procissões, ajudava a carregar o andor da Virgem.
Certo aniversário, levaram-no até o bar para comer doce e tomar guaraná, mas disfarçadamente misturado com cachaça. Depois de bêbado, arrastaram-no a uma casa de mulheres, de onde ele saiu berrando a Deus que o livrasse de Satanás.
Teve, não obstante, amores castos. Ficava de longe namorando com olhos compridos as mocinhas de família que passavam pelo jardim da praça sem nada saber da sua silenciosa adoração.
Depois da morte do meu avô, aposentou-se. De vez em quando, ia visitar, saudoso, a livraria. Cheguei a vê-lo numa dessas vezes. Contaram-me há pouco tempo que morreu octogenário e desmemoriado num asilo de velhos.
Deve estar hoje lá em cima, sentado com o terno de casimira à direita do Senhor, olhando-Lhe, por sobre o ombro, as onze mil virgens que, à sua esquerda, ajudam a tornar menos monótona a eternidade dos justos.
Madrigal
Meu amor é simples, Dora,
Como a água e o pão.
Como o céu refletido
Nas pupilas de um cão.
Iniciação
Com os olhos tapados pelas minhas mãos, os dois seios de A. tremiam no antegozo e no horror da morte consentida.
De ventosas aferradas à popa transatlântica de B., eu conheci a fúria das borrascas e a combustão dos sóis.
Pelas coxas de C. tive ingresso à imêmore caverna onde o meu desejo ficou preso para sempre nas sombras da parede e no latejar do sangue, realidade última que cega e que ensurdece.
auto-epitáfio n.2
para quem pediu sempre
/tão pouco
o nada é positivamente
/um exagero.
Categoria: Poesia do dia
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 12h47
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Santuário
Jatobá Mãe da Floresta, na fazenda Vagafogo, em Pirenópolis
Santuário
Há certos cabelos sobre a face da terra
Que têm a capacidade
De mudar a vida de um homem
Sigo sua trilha
Por entre florestas inexploradas
Escutando o som de orquídeas raras
Chegando em mananciais
Que se encharcam ao leve toque
Encontrando, por suas mãos,
Pepita diamante rubi
Bruto em rochas que lembram lábios
Vou lapidá-lo
E provocar tempestades
Descargas elétricas
Terremotos
Na bela floresta
De certos cabelos
Somos seres em extinção
Nossas radiações luminosas
São absorvidas pela atmosfera terrestre
Somos seres apaixonados
Flutuamos junto à copa das árvores
Deixamos no rio nossos medos de adolescentes
Somos cegonhas
Trazemos boas novas aos habitantes da terra
Precisamos de proteção
O santuário é nosso habitat
O santuário que acolhe nossas pegadas
E nossos risos
E nossas dores
E tudo aquilo que queremos que fique
Só entre nós
Nossos segredos
Os seus, os meus
E os do santuário.
Queria levar lembrancinhas tuas
Pedrinhas
Florzinhas
Souvenires teus
Porém as leis do santuário
Devem ser respeitadas
Levo você dentro de mim.
A sabedoria do santuário
Está em nós
Somos leves porque somos puros
Somos puros porque somos eu e você
Somos inocentes porque estamos aqui
E esse seu corpo
Sobre o meu
Pesa mais que qualquer consciência.
A paixão é responsável
Por criar alegria
Por jogar e brincar
E esses seus certos cabelos são o jogo
Em que aos poucos eu me perco
E aos poucos me perdôo
Sob o céu da vagafogo.
Uma pequena amostra da capacidade do cerrado em conjugar as suas cores com a do céu
Mais fotos do passeio a Pirenópolis estão no post abaixo e no flog: http://ricardosenna.vipflog.com.br
Categoria: Poemas meus
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 09h39
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Sob o céu da Vagafogo
As nuvens negras da política parecem estar se adensando no horizonte. Enquanto isso, continuamos fazendo nossos passeios. Neste final de semana estivemos em Pirenópolis, histórica cidade do estado de Goiás distante cerca de 150 km de Brasília. Foi a segunda vez que fomos a essa charmosa cidade (a primeira vez foi em 1996). O passeio valeu a pena: pousada simpática e bem localizada, lembrancinhas nas lojinhas e feirinhas da cidade, comida farta e saborosíssima (feita com gordura de porco castrado!) nos tradicionalíssimos restaurantes das cozinheiras da terra, show de blues à noite perto da fogueira num bar super transado, nem sinal do frio que faz em Brasília e, claro, as tradicionais aventuras. Descobrimos até uma praia! Com direito a trilha no cerrado e cachoeiras, com acesso a módicos R$ 10 por pessoa.
Cachoeira Santa Maria
Uma das aventuras mais curtidas foi o arvorismo na fazenda Vagafogo. Parece inacreditável, mas subimos até 20m de altura, passando de uma árvore a outra por pontes de pequenos troncos de madeira e cabos de aço e depois de tudo descemos (ou despencamos) por meio de uma tiroleza... Ufa!

Aliás, a fazenda Vagafogo merece mesmo um capítulo à parte...
Outras fotos estão em: http://ricardosenna.vipflog.com.br
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 08h12
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Artes e ofícios da poesia
Hoje aconteceu uma das coisas que mais me dá prazer: recebi, pelo correio, uma pequena caixa de papelão em cujo interior havia um livro encomendado há semanas na Fnac. Deixei-a para abrir por último, após todas as correspondências. Ela ficou ali quieta, aguardando o momento da abordagem que, por mais que eu tente, nunca é tão sutil quanto o recomendado. Tomei coragem, aproximei-me e estabeleci contato. Ela pareceu demonstrar que a aproximação havia sido percebida. Cortei os lacres, que nunca são tão fáceis de ser retirados, o olhei seu interior. Lá estava. Envolto no delicioso plástico protetor cheio de bolhinhas de ar, localizei o livro: “Artes e ofícios da poesia”, organizado por Augusto Massi e editado pela Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo e pela Artes e Ofícios, de Porto Alegre. Trata-se de uma compilação de textos e poemas apresentados por 29 poetas participantes de evento de mesmo nome promovido pela Secretaria em maio de 1990, no MASP.
Como afirma na contra-capa, o evento e o livro acabam por representar “um verdadeiro painel da poesia brasileira atual”, pois reúne depoimentos e/ou poemas de autores consagrados (como Adélia Prado, Alice Ruiz, Antônio Fernando De Franceschi, Glauco Mattoso, José Paulo Paes e outros) e de vozes novas à época, hoje um pouco mais conhecidas (Age de Carvalho, Alcides Villaça, Alexei Bueno, Rodrigo Garcia Lopes e tantos outros).
A abertura do livro é empolgante. Começa com Adélia Prado e seu poema que gosto tanto e que, a cada vez que releio ou copio, me faz concordar tanto com essa visão tão romântica, íntima e positiva da vida de um casal:
Casamento
Adélia Prado
Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como "este foi difícil"
"prateou no ar dando rabanadas"
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.
Uma delícia ler livros como esse, de tanta beleza, especialmente se você tiver a companhia de um plástico cheio de bolinhas de ar para estourá-las todas enquanto as palavras, os versos, os escritos levantam vôo e percorrem seu corpo, penetram no seu coração e arrepiam sua alma. Promessa de boa leitura para esses próximos dias. Quem sabe consigo avançar nessa leitura em Pirenópolis, já que estarei lá neste final de semana. Ah, como a vida pode ser prazerosa...
Categoria: Li, tô lendo, vou ler, vi
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 16h31
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Três composições sobre o sono e muito mais:
entre o deleite e a aurora
Ricardo Senna Guimarães
totalmente só
no casulo
respira
prepara
a metamorfose
suas mãos
buscam apoio
no meu braço
seus pés
enlaçam os meus
entre os lençóis
e o silêncio
da noite
dormimos
levemente juntos
eu e minha borboleta
que se revela
toda manhã
um tratamento
Eduardo Jorge
as palmas perlongam pelas costas com carinho. sentem as costelas. os dedos decifram pouco a pouco, osso a osso. as mãos se ajustam ao trapézio em leves contrações. a tosse gera outro silêncio: o de dormir juntos, abraçados.
O solar do poeta
Francisco dos Santos
A alva
desentrevando
as asas
As sombras
amorcegando
nos olhos
A boa amante
de pés leves
ressonando
entre cetins
Nenhuma ruga
na leve luz
que amanhece
Na jaula do tórax porém,
desencorajado tigre dorme
Categoria: Poemas meus
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 18h30
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31/05/2005 - Night bike das pontes
+ fotos em: http://ricardosenna.vipflog.com.br
O mundo tem tantas esquinas e nossos pés são capazes de façanhas inesperadas. Levam-nos aonde querem. E, de repente, lá estamos nós, cruzando a mesma esquina, num momento improvável, sob a mesma lua. Os olhos não têm outro lugar. As mãos, frias, escondem-se nos bolsos, agitam-se, entrelaçam-se, voltam aos bolsos e percebem que também não há mais lugar para elas. Tudo são belas promessas. A vida está aí para que possamos cumpri-las.
“A vida é um constante exercício
de mãos, criando asas,
de pés, pisando em brasas.”
Leila Miccolis
A grande sacada é que tudo chega de mansinho. Uma noite estrelada não faz barulho, não se queixa sem razão, não provoca sustos em quem tem o coração destinado a bater em compasso com outro coração. Só o que não pode ser imaginado é invisível aos nossos olhos. E, na manhã seguinte, apesar da névoa fria, do sono reprimido, há tudo aquilo que realmente ficou guardado. Afinal muito já se disse: “fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho”.
Um beijo à minha mulher companheira.
Categoria: E Deus criou a mulher...
Escrito por Ricardo Senna Guimarães às 07h46
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